Elas vestem rosa

  • 2018 out 26

Sim. O câncer de mama tem cura. Mas só quem já recebeu o diagnóstico positivo pode avaliar o impacto em sua vida. Elas continuam sendo a Fernanda, a Vânia, a Maria… continuam sendo mães, mulheres, esposas, avós, bancárias, terapeutas… a essência é a mesma. Porém a maneira de viver muda completamente. Nunca mais um passeio com a família ou um abraço dos filhos será o mesmo. O valor de estar viva é muito maior.

Neste Outubro Rosa, mês de conscientização sobre a importância da prevenção ao câncer de mama, o Guia Gaia conta a história de duas mulheres incríveis que venceram a luta contra a doença. Hoje elas vestem rosa para lembrar a importância de manter os exames em dias e também dar forças para quem está passando por tratamento.

Duas histórias lindas, da Fernanda e da Vânia. Duas guerreiras e vitoriosas!

 

Tudo passa

Fernanda Ferrarezzi Borges recebeu o diagnóstico do câncer de mama em agosto de 2015, aos 37 anos, cinco meses após perder a mãe.  “Muitos vão pensar que a doença foi a pior coisa que podia ter acontecido na minha vida, mas não, porque em março desse mesmo ano minha mãe tinha falecido depois de uma cirurgia cardíaca. Aquela que era meus dois braços e minhas duas pernas, minha companheira, amiga, protetora e ainda me ajudava com as gêmeas. Minhas pequenas tinham dois aninhos quando a avó morreu e isso sim doía demais! Era inadmissível na minha cabeça. Sofri muito e ainda dói demais a sua ausência física”.

Com a família: “Precisamos viver o hoje, amar hoje, perdoar hoje, se cuidar hoje”

Fernanda conta que o câncer fez parte de sua vida desde muito cedo. Seus avós (maternos  e paternos), tias e mãe tiveram. “Isso fez com que eu começasse a me prevenir muito nova”. Aos 30 anos já fazia mamografia.  E tinha feito em novembro de 2014. “Oito meses depois ele apareceu já com um tumor de 6 cm”.

Começava então uma corrida contra o tempo para Fernanda. “Médicos, exames, a família em choque e eu focada em acabar com aquela doença o mais rápido possível, porque eu nunca me senti doente, não tinha sintomas da doença, então coloquei na cabeça que aquilo não me pertencia e fui à luta”.

Começaram as quimioterapias e Fernanda se afastou do trabalho para se tratar. Foram 16 sessões. “E essas sim foram cruéis, passava muito mal. Enjoos, fraqueza, tontura, dores no corpo, falta de apetite, restrição alimentar, ondas de calor, crises de ansiedade, as veias foram secando e cada sessão era uma tortura… uma, duas, cinco picadas para achar uma mísera veia”, relembra Fernanda que diz ter vencido uma a uma, dia após dia!

“Os cabelos caíram sim, fiquei carequinha, mas esse foi o menor dos problemas. Aderi aos lenços, turbantes e segui a vida. Todo mundo acha que é um horror ficar careca, que é a parte mais difícil. Mas não imaginam como é boa a sensação de tomar banho careca, de não precisar fazer escova, luzes, chapinha”, ri.

Durante o tratamento: “fiquei carequinha, mas esse foi o menor dos problemas. Aderi aos lenços, turbantes e segui a vida” (foto: Pedro Ferrarezzi)

Em março de 2016 Fernanda fez a última quimio e começou uma nova fase do tratamento. “A cirurgia para tirar de uma vez por todas aquilo de dentro de mim”.

Com as filhas: “meu combustível diário de amor incondicional”

Fernanda precisou fazer mastectomia total da mama esquerda e o esvaziamento da direita por precaução, pois durante o tratamento um estudo genético deu positivo para a mutação, o que aumentava as chances de desenvolver um outro câncer de mama, útero e ovário. “A cirurgia foi um sucesso, recuperação dolorida, mas sempre pensando: um dia de  cada vez e amanhã sempre melhor que hoje. E depois de seis meses pronta para a segunda cirurgia: retirada do útero, ovários e trompas.

Fácil? Nunca foi… “Mas tive uma oportunidade de evoluir, de enxergar a vida com outros olhos, de dar valor às pequenas coisas, de ter orgulho das minhas cicatrizes e de me ligar ainda mais a Deus, a espiritualidade”.

Hoje, três anos após o diagnóstico, e curada, Fernanda avalia que ainda precisa evoluir muito, mudar muito. “Já voltei a minha vida maluca: trabalho, filhas, casa, marido, problemas,  mas tento todos os dias fazer uma auto-reflexão de tudo que passei e o quanto preciso ser grata. Primeiramente a Deus, que me permitiu o dom da cura e depois ao meu marido(que sempre esteve ao meu lado), as minhas filhas (meu combustível diário de amor incondicional), minha família, amigos e todos que cuidaram de mim! Gratidão é a palavra de ordem”.

Para Fernanda, a lição que tirou de tido isso é que tudo passa! “Precisamos viver o hoje, amar hoje, perdoar hoje, se cuidar hoje”. E destaca uma frase de Chico Xavier: “A vida é feita de momentos, momentos que temos que passar, sendo bons ou ruins, para o nosso próprio aprendizado. Nunca esquecendo o mais importante, nada nessa vida é por acaso… absolutamente nada!”

 

Cabelos cor-de-rosa

A suspeita inicial de Vânia era o câncer de mama, mas a doença estava no útero

Há três anos Vânia de Oliveira, naturapeuta de 57 anos, pinta o cabelo de rosa todo mês de outubro.  A maneira que encontrou para chamar a atenção para a prevenção do câncer, após enfrentar a doença.  “As pessoas na rua me perguntam por quê o cabelo rosa e eu digo: Outubro Rosa. Investigue tudo, não apenas o câncer de mama”.

Ela descobriu o câncer no salão de beleza, há quatro anos. Enquanto fazia o cabelo, o  profissional preparava mechas para fazer um mega hair. Vânia elogiou e perguntou de quem era o cabelo. Ele respondeu que era da irmã, que teve câncer. “Ponto. Ali eu já sabia. Estava com câncer”, relembra Vânia, que contou para a família mesmo antes de ter o diagnóstico. “Me chamaram de louca, mas eu sabia”.

Foi seu sexto sentido que a fez ir ao médico e investigar. “Meus exames estavam em dia. Eu tinha feito mamografia há seis meses”.  Mesmo assim ela procurou seu ginecologista e refez todos os exames. Encontraram dois nódulos no seio, benignos. Mas ela insistiu para continuar investigando, pois sabia que estava doente, apesar de não sentir nada.  “Foi então que encontraram quatro nódulos malignos no útero”.

O câncer era violento e os médicos precisam operar o mais rápido possível. “Tive que pagar o tratamento particular, pois não dava tempo esperar aprovação do plano de saúde. Se eu não tivesse descoberto naquela época, ou teria morrido sem saber a causa. Apenas minha família saberia o laudo depois”.

Vania divide seu tratamento em duas fases. As duas cirurgias, em que precisou tirar o útero e depois reconstruir alguns órgãos. “Fui para a primeira cirurgia achando que iam tirar apenas os nódulos, mas quando os médicos abriram a situação estava pior. Foi preciso tirar o útero, e parte da bexiga e intestino“.  Em uma segunda fase passou pela quimioterapia, vomitou muito, sentiu muita dor. Não chegou a perder o cabelo todo, mas precisou cortar. “Eu que sempre tive cabelos longos e cortar curtinho mexeu com a autoestima. Sem falar que fiquei oca por dentro, precisei reconstruir vários órgãos. Eu já tinha dois filhos, mas pensava naquelas mulheres que nunca mais poderiam gerar um”.

Com coragem e fé ela enfrentou a doença. E venceu. “O pior foi lidar com o lado emocional. Eu estava com câncer. E difícil e aceitar e lidar com incertezas. Ficam sequelas, até mesmo na cabeça, nunca mais estarei tranquila”, conta Vânia que ainda enfrentou o fim do seu casamento por conta da doença.

Mãe e avó, desde então Vânia luta para conscientizar outras mulheres sobre a importância de investigar a doença  e seguir seu sexto sentido. “Ele me salvou”. Por conta de toda a mobilização do Outubro Rosa, a suspeita inicial de Vânia era o câncer de mama, mas no seu caso foi de útero. “É importante investigar a fundo a doença. Na mama é possível detectar pelo toque. Em outros órgãos, como o intestino, sentimos dor. Mas no útero não sentimos nada. Não dói”.

 

 

Da reportagem local (Texto: Ana Paula Bardella)

 

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